Uma paixão que nasce do acaso

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Nunca imaginei que um dia seria especialista em vinhos.

Sou jornalista há quase 15 anos. A metade deles trabalhando com esportes. O jornalismo sempre foi muito mais do que uma profissão, é uma paixão irremediável que apenas os jornalistas entendem. E o vinho nunca foi parte da minha vida.

Meus pais nunca tiveram o hábito de beber vinhos, meu velho sempre preferiu um bom whisky escocês.

A primeira vez que tomei um vinho e gostei foi há 11 anos. Em uma visita a uma vinícola, na cidade de Zahle, Líbano.

Tinha chegado ao país há poucas semanas, no verão de 2004, para um programa de dois anos de mestrado em Ciências Políticas e Assuntos de Oriente Médio. Tudo era muito novo pra mim, nunca tinha ido ao Líbano e a viagem surgiu da vontade de conhecer de perto a terra de onde meu avô emigrou no começo do século XX.

Era verão, as aulas não tinham começado e um primo libanês que se formou enólogo na França me chamou para um passeio. Ele tinha que ir à uma das vinícolas que assessorava para fazer um controle de rotina e não queria ir sozinho. Eu topei na hora.

Mesmo “não gostando de vinho”, a ideia era bacana. Ir ao Vale do Bekaa e conhecer uma empresa produtora de bebida alcóolica em pleno Oriente Médio podia até render uma pauta.

No caminho ele foi me contando a história dos vinhos libaneses, a influência rescente da colonização francesa e como Zahle é hoje a grande referência vitivinícola de uma região que produz vinhos há milênios – Jesus não tomou Coca-Cola na última ceia.

Foi nesse cenário idílico, com 26 anos, que tomei minha primeira taça de vinho de qualidade. E minha vida mudou. Sem exagero. Pra mim, até aquele momento, vinho era ruim… Era Almadem, Sangue de Boi, Marcon – com todo o respeito, claro! 🙂
Ali eu descobri uma bebida especial, quase mágica, artística, que muda com o tempo, que tem sabores e aromas maravilhosos e que evoluem em minutos dentro da taça. Descobri a experiência sensorial única que é desfrutar um bom vinho.
Desde então eu quero comer tudo acompanhado com um vinho. E ajudou o fato de ter conhecido uma espanhola neta de viticultores galegos, que produziam vinho para a arquidiocese na linda região da Ribeira Sacra.
Nos casamos, fomos morar no Brasil e, em 2010, quando decidimos fixar residência na Espanha, que eu passei a levar essa paixão realmente a sério. Comecei a fazer cursos de degustação e, consequentemente, acabei na Escola Espanhola de Degustação onde me formei Sommelier profissional.

Foi apenas o começo. O diploma é a chave para entrar nesse mundo, mas o aprendizado é um desafio diário que provavelmente será durante a vida toda. Só na Espanha são aproximadamente 5.500 vinícolas. Parece muito mas é 1/3 da que existem em Bordeaux… É humanamente impossível conhecer todos os vinhos do planeta é saber tudo sobre eles.

Por isso a primeira regra de um “especialista” em vinhos é ter a humildade de assumir suas limitações e abraçar sua ignorância. Ter a curiosidade constante de uma criança é a mente, o paladar e o nariz como uma esponja. Buscando sempre novos vinhos, sabores e aromas.

E é mais ou menos por isso que sempre recomendo aos meus alunos e amigos que tentem deixar o medo de lado e provar novos rótulos, marcas, regiões, uvas. Porque essa é a única maneira de saber o que você gosta ou não.

Nesse blog, no meu canal do YouTube, nas aulas e palestras, eu convidarei você a viajar comigo pelo fascinante mundo do vinho. Que olhado com curiosidade e sem ostentação, é muito mais simples e divertido do que muitos apresentam. Afinal de contas estamos falando de uma experiência pessoal porque ninguém vai te dizer quais são as sensações que seu nariz e sua boca estão experimentando.

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